Abriu os olhos muito devagar e notou que já era dia.
A cabeça estava vazia, apenas meio desperta.
Não conseguia lembrar da noite passada.
Sentiu a boca seca e amarga,
lembrou-se que há muito não comia nem bebia nada.
Mesmo assim, não sentia fome ou sede.
Sentou-se na beirada da cama e encarou a parede branca.
Se deu conta que era só mais um dia qualquer
de uma semana qualquer
como todos os outros.
Fazia tempo que não se importava com os dias.
Desejou voltar ao momento anterior
quando a mente ainda estava naquele estado confuso,
nem dormindo, nem acordada.
Falhou.
Ainda ficou algum tempo sentada,
lembrando, quase que sem querer,
de todos os acontecimentos que a levaram até ali.
Riu com amargura da ironia daquilo tudo,
mas ao mesmo tempo, coisa estranha,
sentiu-se grata.
Sabia que se não passasse por aquilo tudo,
jamais teria mudado
e se tem uma coisa que odiava mais do que aquela situação,
era a pessoa que um dia foi.
"É, é necessário" disse para si em voz alta,
num tom que mais lembrava uma bronca.
Sabia que ainda levaria tempo para que sua vida entrasse nos eixos,
mas entender e aceitar a necessidade daquilo a traquilizava.
"Tudo há de ficar bem!" disse com energia para si mesma
e de fato, só de falar aquilo, já sentia-se melhor.
domingo, 25 de março de 2012
segunda-feira, 19 de março de 2012
Desorganização crônica
Preciso escrever.
Botar no papel, organizar as ideias.
Nada funciona direito na minha cabeça.
Lá, tudo é misturado, embaralhado, indistinto.
E se já não fosse ruim o bastante,
nada fica retido por muito tempo.
Esqueço, esqueço tudo.
Que confusão.
Preciso escrever.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Velhice
Volta e meia, quando saio pra correr, encontro duas senhoras que caminham na calçada. A julgar pela aparência, devem ter mais de 70 anos de idade. Elas seguem num andar muito vagaroso e sempre estão de mãos dadas. É que a marcha já não é lá essas coisas, então o apoio mútuo se faz necessário para que consigam andar. Apesar do corpo mostrar sinais inegáveis de cansaço, ambas sorriem constantemente e eu consigo ver a tranquilidade que repousa em seus lábios e olhos quando o fazem. Em seus rostos amigáveis, enxergo a serenidade que só se adquire com o passar dos anos, quando já não somos movidos pelas paixões e nossa susceptibilidade ao arrebatamento está quase adormecida. Não mais nos entregamos a vaidade ou ao orgulho e até mesmo as intempéries perdem a capacidade de nos abalar profundamente. Imagino que essa constância da alma é a recompensa merecida que vem para aqueles que passaram por tudo, mas nunca se entregaram. Para os poucos que apesar de, se mantiveram de pé.
Passo por elas e olho pra trás. Penso por um segundo se um dia serei capaz de sentir essa calma quase inquebrantável. Lembro dos quilômetros que tenho pela frente, sorrio e aperto o passo.
Passo por elas e olho pra trás. Penso por um segundo se um dia serei capaz de sentir essa calma quase inquebrantável. Lembro dos quilômetros que tenho pela frente, sorrio e aperto o passo.
Adélia
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| Adélia Prado. |
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
domingo, 11 de março de 2012
Cegueira.
Cinco segundos de paz.
Só isso.
Foi o suficiente pra eu saber porque
e para onde.
Então finalmente entendi.
Só se descobre quem realmente é
e que caminho seguir
nos momentos que o coração descansa.
Confusão é cegueira.
Mas calma,
essa deficiência provisória é necessária.
Só ela ensinará a ouvir,
a tatear,
a farejar,
a caminhar no escuro,
a tropeçar e cair,
mas também a se levantar pelos braços de outrem
e se sentir apenas grato,
pois o orgulho excessivo se perde
nos momentos de verdadeira agonia.
Não tardará, serás mais que apenas olhos
e nesse momento saberás que é a moléstia,
mais que a sanidade,
que te fará sólido,
que não haveria calmaria,
se antes não houvesse calamidade.
Por isso te digo
que se ainda sentes tontear e perder,
que se é no breu que te encontras,
não te desesperes,
sê firme
que essas horas de angústia hão de cessar.
Só isso.
Foi o suficiente pra eu saber porque
e para onde.
Então finalmente entendi.
Só se descobre quem realmente é
e que caminho seguir
nos momentos que o coração descansa.
Confusão é cegueira.
Mas calma,
essa deficiência provisória é necessária.
Só ela ensinará a ouvir,
a tatear,
a farejar,
a caminhar no escuro,
a tropeçar e cair,
mas também a se levantar pelos braços de outrem
e se sentir apenas grato,
pois o orgulho excessivo se perde
nos momentos de verdadeira agonia.
Não tardará, serás mais que apenas olhos
e nesse momento saberás que é a moléstia,
mais que a sanidade,
que te fará sólido,
que não haveria calmaria,
se antes não houvesse calamidade.
Por isso te digo
que se ainda sentes tontear e perder,
que se é no breu que te encontras,
não te desesperes,
sê firme
que essas horas de angústia hão de cessar.
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| A cega. |
sexta-feira, 9 de março de 2012
Será?
Será possível?
Será possível ser um ignorante em meio as próprias palavras?
Será possível que os termos tenham vida própria e assumam conotações que nunca se pretendeu dar?
Será possível que um texto possa ter tantos significados que o próprio autor desconheça todos eles?
Será possível?
Decerto, o escritor que não se faz entender é deveras incompetente.
Será?
Ou será o leitor um eterno equivocado?
E agora?
Agora, meu bem, cala teu discurso.
Será possível ser um ignorante em meio as próprias palavras?
Será possível que os termos tenham vida própria e assumam conotações que nunca se pretendeu dar?
Será possível que um texto possa ter tantos significados que o próprio autor desconheça todos eles?
Será possível?
Decerto, o escritor que não se faz entender é deveras incompetente.
Será?
Ou será o leitor um eterno equivocado?
E agora?
Agora, meu bem, cala teu discurso.
terça-feira, 6 de março de 2012
Notas perdidas
Hoje eu olhei minha agenda velha e, entre um compromisso e outro, estava escrito:
"engraçado, os melhores momentos que tive até hoje vieram logo depois de um baque.
Quase dá vontade de agradecer a vida pelas rasteiras que me deu.
Quase."
Achei pertinente.
"engraçado, os melhores momentos que tive até hoje vieram logo depois de um baque.
Quase dá vontade de agradecer a vida pelas rasteiras que me deu.
Quase."
Achei pertinente.
domingo, 4 de março de 2012
Julgamentos
Se um dia tu fores injustiçado,
se acusações falsas caírem sobre ti,
se fores privado do direito à defesa,
se tua palavra não tiver valor nenhum,
e fores julgado culpado antes do fim,
não te deixas dominar pela ira
ou pela tristeza,
lembra-te que no fim das contas,
o que importa é ter a consciência tranquila
e não o julgamento alheio.
Deixa pra lá esses juízes iníquios,
e segue em frente,
que o caminho é longo
e não há mais tempo a perder.
se acusações falsas caírem sobre ti,
se fores privado do direito à defesa,
se tua palavra não tiver valor nenhum,
e fores julgado culpado antes do fim,
não te deixas dominar pela ira
ou pela tristeza,
lembra-te que no fim das contas,
o que importa é ter a consciência tranquila
e não o julgamento alheio.
Deixa pra lá esses juízes iníquios,
e segue em frente,
que o caminho é longo
e não há mais tempo a perder.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Sobre correr
Estou correndo.
Não, não é uma metáfora.
Todo dia eu coloco meu tênis velho e saio de casa.
Queria correr na rua, mas não dá, aqui não tem onde.
Escolhi uma academia perto da minha casa.
Ela é pequena e quente pra caramba, mas eu gosto.
Quando chego, só cumprimento a recepcionista,
não conheço mais ninguém e nem quero.
Vou lá, acredite se quiser, pra ficar só.
Coloco os fones nos ouvidos, ligo meu MP4 e
me dirijo até o local onde ficam as esteiras,
escolho a mais ferrada e subo nela.
No começo é difícil se concentrar,
mas depois dos primeiros vinte minutos
consigo me desligar totalmente do mundo.
Agora sou apenas eu e a estrada que se desenha na minha cabeça.
É quase um transe.
Não sinto mais o esforço,
nem sequer as pernas reclamam,
meu corpo está anestesiado.
Corro sem pensar em nada.
Entre um pique e outro, caminho
e nesses momentos me permito fechar os olhos.
Perco totalmente a noção do resto do mundo,
sou só eu e o caminho a ser percorrido.
Esse momento é meu,
sei disso e aproveito cada segundo.
Começo a correr novamente,
sem me preocupar com o tempo
a mente está vazia,
o coração calmo.
Uma hora meu corpo finalmente começa a dar sinais de cansaço.
Sinto que a hora de parar está próxima.
O cérebro não quer, mas as pernas não aguentam mais.
Nessa hora, curiosamente,
eu sempre presto mais atenção na música que está tocando.
A de hoje dizia "And i'm racing down a road i don't recognise ",
ouvi isso e apertei o passo, corri com mais vontade que nunca,
eu estava totalmente livre.
Quando acabo, vou embora do mesmo jeito,
sem trocar palavra com ninguém.
Sigo até minha casa cantando a última música que ouvi,
algumas pessoas olham curiosas,
mas eu nem ligo,
estou em paz.
Não, não é uma metáfora.
Todo dia eu coloco meu tênis velho e saio de casa.
Queria correr na rua, mas não dá, aqui não tem onde.
Escolhi uma academia perto da minha casa.
Ela é pequena e quente pra caramba, mas eu gosto.
Quando chego, só cumprimento a recepcionista,
não conheço mais ninguém e nem quero.
Vou lá, acredite se quiser, pra ficar só.
Coloco os fones nos ouvidos, ligo meu MP4 e
me dirijo até o local onde ficam as esteiras,
escolho a mais ferrada e subo nela.
No começo é difícil se concentrar,
mas depois dos primeiros vinte minutos
consigo me desligar totalmente do mundo.
Agora sou apenas eu e a estrada que se desenha na minha cabeça.
É quase um transe.
Não sinto mais o esforço,
nem sequer as pernas reclamam,
meu corpo está anestesiado.
Corro sem pensar em nada.
Entre um pique e outro, caminho
e nesses momentos me permito fechar os olhos.
Perco totalmente a noção do resto do mundo,
sou só eu e o caminho a ser percorrido.
Esse momento é meu,
sei disso e aproveito cada segundo.
Começo a correr novamente,
sem me preocupar com o tempo
a mente está vazia,
o coração calmo.
Uma hora meu corpo finalmente começa a dar sinais de cansaço.
Sinto que a hora de parar está próxima.
O cérebro não quer, mas as pernas não aguentam mais.
Nessa hora, curiosamente,
eu sempre presto mais atenção na música que está tocando.
A de hoje dizia "And i'm racing down a road i don't recognise ",
ouvi isso e apertei o passo, corri com mais vontade que nunca,
eu estava totalmente livre.
Quando acabo, vou embora do mesmo jeito,
sem trocar palavra com ninguém.
Sigo até minha casa cantando a última música que ouvi,
algumas pessoas olham curiosas,
mas eu nem ligo,
estou em paz.
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